"Enxuto
e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do
bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas
antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de
consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume
batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
-É servida ?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
-Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia dum patriarca.- A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S.José."
Miguel Torga, Natal, "Os Novos Contos da Montanha"